Como sempre, no Sabado à noite voltei ao cinema. Fui ver Casamento de Raquel, não estava à espera de nenhum filmaço, nem de nada dialecticamente transcendente. E não fui surpreendido. O filme dói um bocado a ver, em especial a parte em que entra a música de baile para animar a festa. Nunca dá bom resultado em cinema, querer meter o Rossio na Rua da Betesga. A cena nem começa mal; Tem a abrir um Bloco de Samba Brasileiro, que me trouxe logo à memória o meu Carnaval de 2008 no Rio de Janeiro e de como o Bloco de Ipanema é divertido com as suas Caricatas. Esta cena inicial, surpreende pela espontaneidade e a alegria de ser dançada e tocada por verdadeiros artistas - emigrantes brasileiros - nada de imitações americanizadas. O pior vem logo a seguir e mostra-nos bem quão a cultura norte-americana é vertiginosa e está pelas ruas da amargura. Um pouco de mais critério nas músicas e menos velocidade nas transições teria sido bem melhor e dava-nos tempo a reconhecer o que tocabam. E a ver como na parte norte do continente se dança mal. Se calhar foi de propósito para não termos tempo de nos aperceber desse detalhe. Mas isso, toda a gente sabe.
.

Muito pior que esta cena, é a da discussão das irmãs na véspera do casamento – mete dó de tão forçada e irrealista, seria compreensível depois de um enterro, mas nunca na véspera de um casamento tendo como protagonista a própria noiva. E os diálogos deveriam ter sido escritos por um qualquer autor francês que teriam sido bem mais interessantes. Quando é que os norte-americanos se vão convencer que, eles só sabem escrever bem discursos políticos para pôr o povão em êxtase, e que no que diz respeito a cenas intimistas só levam algum jeito se forem trágico-comicas? Diálogos tipo Woody Allen no seu melhor, que nunca foi o meu melhor estilo cinematográfico. Só comecei a gostar dele depois da Rosa Púrpura do Cairo.
O elenco não era mau … nem bom, e a Academia, desta vez, também foi desta opinião e para isso contribuiu em muito o mau desempenho geral do filme. A actriz principal, o melhor que conseguiu, foi uma nomeação para melhor actriz coadjuvante (modernice que este ano se começou a utilizar para designar o que antes se chamava actriz secundária), e como era de esperar não ganhou a estatueta. Anne Hathaway até que se aguenta bem num papel tão pesadamente trágico, que vai marcar de certeza a sua carreira, que ainda é tão curta aos vinte seis anos. Não é um mau princípio para ela, mas é um mau final para a arte de bem representar. Já a conhecia de dois bons filmes marcantes e até me tinha sido simpática mas, quer em Brokeback Mountain (2005), quer em O Diabo veste Prada (2006), a sua presença era quase invisível.
Fiquei sem saber quem era a actriz principal do filme - isto é: qual das atrizes participantes teria merecido esta nomeação - mas, quando acabou, a minha alegria foi tal que, também já não me importava nada o facto de o filme só ter actrizes secundárias. Nada mau para um filme de quinta categoria, que traduz o pior do espirito tacanho dos Estados Unidos suburbano e da sua cinematografia. Em particular daquela que a academia reconhece e promove.A única coisa que me animou no filme foi ver que a indumentária e a decoração escolhida para a cerimónia do casamento era de inspiração indiana. Ao igual que as escolas de Samba que, através de um sistema de espionagem sofisticado, descobrem e copiam o enredo umas das outras o que fez com que no ano passado no Carnaval do Rio dominavam os temas em torno dos 200 anos da chegada da corte Portuguesa à cidade, ao passo que em São Paulo eram os 100 anos das primeiras vagas de emigrantes Japoneses que serviram de inspiração. Parece que em Hollywood acontece o mesmo e os 008 que, infelizmente não estão ao serviço de Sua Magestade, não descançaram, o que faz com que este ano Cinewoodesco vá ficar para sempre lembrado como o ano do enredo Indiano. Se esta inspiração temática não passar rapidamente, então façam as coisas como devem ser feitas e filmem as proximas peliculas em estudios de Bollywood, onde a autenticidade está garantida e a possibilidade de ganhar vários nomeações aos Óscares será bem maior. O guarda-roupa nem era assim tão bom. Se não fosse a tenda e o Bolo de Noiva o filme era um autêntico deserto de emoções visuais, e os olhos também comem.
Bueno: Eu também já comido uma fatia de um bom bolo…
E imoral da história - a bruxa má era a mãe! (Como na vida?)
.


1 comentário:
Sobre casamentos convencionais não me pronuncio. Soy contra. Não conheço nenhum absolutamente bom. No soy contra o casamento gay porque penso que as pessoas precisam zabrir o coração e entender que somos todos iguais perante a lei e perante Deus...
Enviar um comentário