Ou os descontrolos vocais das minhas alunas!.
Já não vivo sem o barulho de fundo típico de uma sala de aula no início de um ano lectivo numa turma inicial. Vozes que soam em simultâneo de forma harmoniosa e ininterrupta durante setenta e cinco minutos. Este cenário transporta-me logo para um grande teatro de ópera onde decorre uma das minhas peças preferidas.
Já não vivo sem o barulho de fundo típico de uma sala de aula no início de um ano lectivo numa turma inicial. Vozes que soam em simultâneo de forma harmoniosa e ininterrupta durante setenta e cinco minutos. Este cenário transporta-me logo para um grande teatro de ópera onde decorre uma das minhas peças preferidas.
Tem tudo o que é necessário:
A entrada na sala – Quinze minutos ruidosos de vozes, de arrastar de cadeiras e mesas com livros a serem atirados para cima delas – equivalem ao afinar dos instrumentos.
O sumário – A entrada do maestro no fosso da orquestra entre aplausos e tirar dos casacos para os atrasados do costume.
A aula propriamente dita – entram os artistas em cena, já com as vozes bem aquecidas, e começa a cantoria – um acto inteiro em três partes, cada uma de vinte e cinco minutos – dai os setenta e cinco de que falava há pouco.
Quando saio da escola à hora de almoço, depois de três blocos de noventa minutos, já assisti à obra completa – uma ópera russa, daquelas bem compridas, em três actos no mínimo. Destas, a minha preferida é “Príncipe Igor” de Alexandr Borodín – mas esta tem quatro, é um pouco mais comprida, equivale aos dias maiores. Aos intermináveis!
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Muitas vezes sinto-me um privilegiado, pois sou o único espectador daquele delicioso espectáculo que, os mais de vinte artistas, representam só para mim e para mais ninguém. Uma coisa única e exclusiva que se desenrola no palco, estando eu sozinho na plateia.Digo tudo isto porque, agora que os coros já quase não se ouvem, fico desesperado, carente, quase a ressacar. Mas ainda existem alguns duetos, raros, mas existem, e hoje houve um (impossivel de transpor para caracteres), que me lembrou o meu preferido – a área floral da ópera Lakme*, de Léo Delibes, sem dúvida uma ópera prima. E que mais podia desejar, agora que estou numa onda de cultura francófona…
O libreto, como na ópera, seja em que língua for, era quase incompreensível mas, o que importa eram os sons. Em francês, em criolo, ou noutra língua qualquer, ópera é sempre ópera, música é sempre música e má criação é sempre má criação!
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Bueno: e agora que as artistas amadoras estão a entrar nos eixos, para não ficar carente, só me resta comprar uma assinatura para a proxima temporada do S. Carlos!
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Bueno: e agora que as artistas amadoras estão a entrar nos eixos, para não ficar carente, só me resta comprar uma assinatura para a proxima temporada do S. Carlos!
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* Recomendo este vídeo: O cenário é de um design elegantíssimo; O guarda-roupa é inspirado no segundo império, utilizando as saias com as criolinas e os grandes decotes com os ombros à mostra que a Imperatriz Eugénia do Montijo pôs na moda; A pronuncia francesa, apesar das interpretes serem japonesas, é certamente melhor que a que as nossas alunas alguma vez terão; A execução, quer vocal, quer instrumental, é irrepreensível; As caritas, com aqueles olhinhos rasgados e as boquinhas em :O, são impagáveis; Para terminar, o maestro, no final é de uma super delicatesse ...; Pena não saberem ler as legendas que passam em roda-pé.
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3 comentários:
Surpreendeu-me esta perspectiva positiva da agitação de que os nossos filhos são actores nas salas de aula.
Até que enfim que alguém acolhe desta forma o ciclo e ritmo dos jovens. E que entende que, para de ópera se passar a lição, o professor é que - mais do que qualquer outro -, deve ser o maestro (ora, mestre!). Ali, naquele palco.
Magnifico, como sempre! Adorei a analogia:)!
Um beijinho
Christina Louriro
A grande música inspira-te ao nível do ruído. Muito bem. Bom texto.
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