Eu fiquei de tal modo impressionado com o que me aconteceu na última madrugada que não pude deixar de escrever sobre isto.
Mas vamos começar um pouco mais atrás.
Tenho uma colecção de puzzles considerável, comprada, quase toda, nos museus que visito, e todos reproduzem obras de arte, na maioria pintura. Umas mais conhecidas que outras. Deu-me para isto. Há quem faça colecção de bonecas em trajes nacionais/regionais.
Os puzzles são uma actividade cerebral excelente, para estimular os neurónios e desenvolver a memória, em que eu me viciei. É como decorar poemas. Outro exercício que eu pratico como ópio cerebral, e que resulta mesmo quando se trata de letras de musicas. O que é preciso é ter o cérebro a funcionar, em vez de adormecido em frente à televisão, ligada num qualquer canal. Não suporto televisão por televisão, muito menos vê-la só porque a imaginação não dá para mais. Prefiro cortar os pulsos.
Pois bem, ontem à noite (quinta feira), depois de ver até à exaustão, uma aluna histérica aos gritos “Dá-me o telemóvel já!” como se se tratasse do Ouro do Reno, e como o Arte e o Mezzo não estavam a dar nada de jeito, o People & Arts falava de um fulano que, eu duvido muito que alguma vez venha a ser conhecido, e o Canal História mostrava como uma brigada de reconhecimento de marines americanos (tipo Rambo) enfrentaram um corpo de carros de assalto blindados Iraquianos em noite de lua cheia em pleno deserto, e como não tinha sono (para variar), resolvi pôr um CD a tocar e fazer um puzzle.
Peguei no primeiro CD que estava à mão, sem grande cuidado em seleccionar o que iria ouvir, pois a verdade é que não me apetecia ouvir nada em especial, o que eu queria mesmo era um fundo musical para a actividade principal que iria desenvolver. Acho que fiquei traumatizado com aquela gritaria na sala de aula e a capa do CD prometia suavidade. Com o puzzle, fiz exactamente a mesma coisa: Tirei o primeiro por estrear (nunca faço um puzzle duas vezes, a repetição de tarefas não estimula muito as celulazinhas cinzentas). Também preparei uma bebida que de tanta gritaria estava com a garganta seca.
Comecei como se deve começar um puzzle. Caso não saibam é um exercício de método e ciência, perspicácia e persistência, paciência e rigor.
Não é nenhuma brincadeira de crianças mas, contudo, muito mais fácil que dar aulas.
E passo a passo lá fui eu como manda a cartilha:
1º Viram-se as peças todas para o mesmo lado e procuram-se as que têm um lado liso. Podem-se ir arrumando por cores, ao mesmo tempo que se tentam voltar (para o quadro). Há quem prefira arruma-las pela ordem do livro de ponto, da janela para a porta em serpentina, como nos exames;
2º Tenta-se encaixar as peças que fazem a moldura do quebra-cabeças, as que têm uma face polida, até se ter o enquadramento completo e os limites estabelecidos, este passo também é conhecido como perfil sócio-cultural;3º Depois de bem enquadrado, é muito mais fácil atacar o centro, então vão-se juntando as peças que se seguem e encaixam com as da moldura, com as polidas, normalmente as com alguma definição de forma e de conteúdo;
4º Por último, vêm as monocromáticas, sem qualquer referencial figurativo. Nestes casos, se queremos concluir o puzzle e atingir as Metas e os Objectivos estabelecidos, temos que experimentar, uma a uma, nos buracos que nos faltam preencher.Sem nunca abandonar nem excluir nenhuma, pois, à partida, qualquer delas pode ser a peça certa para as nossas necessidades de progressão na carreira.
E o que é que isto tudo tem a ver com Deus?
Pois bem, eu também só percebi quando finalmente acabei o puzzle e percebi que a Sexta-Feira Santa já tinha amanhecido e que o que tinha na minha frente, acabado de construir, era a reprodução do famoso fresco da Última Ceia, de Leonardo da Vinci, da Igreja de Santa Maria das Graças (1), que eu tinha comprado em Milão, há uns anos atrás mas que, não sei porquê, nunca o tinha feito. Devo tê-lo arrumado no fundo do armário, por trás dos outros todos quando regressei de Itália.
O CD que tocou, quase oito horas ininterruptas, pois seleccionei o repeat para não ter que me levantar para trocar o CD ou voltar a carregar no play para ouvir novamente, era o Requiem de Mozart, interpretado pela Orchestre Philharmonique de Berlin, dirigida por Herbert von Karajam, numa gravação da Deutsche Grammophon, um verdadeiro Rolls Royce discográfico. Podia ter sido qualquer outro mas, pela mão de Deus, era este que se encontrava mais à mão.

Bueno … rendi-me à evidência … Deus existe e esta interrupção lectiva serve para comemorar a Páscoa, a Sua Morte e Ressurreição. Ou já se tinham esquecido?
1) http://www.30giorni.it/br/articolo.asp?id=10885


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