segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A ÍNDIA ESTÁ NA MODA E AS VACAS SAGRADAS TAMBÉM

Costumo ir ao cinema todos os Sábados à sessão da meia-noite e ontem fui ver o filme do ano, há muito que não via um filme que me enche-se tanto as medidas. “Quem quer ser bilionário?” foi o filme que obteve mais nomeações para os Óscares – dez no total, fora os vários prémios que já leva ganhos, incluindo o da Academia Inglesa e dos Globos de Ouro para melhor filme. Vai-se conhecer esta noite a quem vão ser atribuídos e eu vou ficar acordado a ver em directo. Espero que este filme ganhe boa parte dos Óscares para que está nomeado pois, convenceu-me, e não é fácil um filme conseguir essa proeza. Especialmente não sendo de David Lynch ou de Tarantino e não tendo nenhum dos meus actores fetiche. Pena não ter nomeações para melhor actriz e melhor actor. Apesar de jovens inexperientes, eles até mereciam umas nomeações, todos talentos prometedores, em particular o actor que faz o papel do protagonista em novo, que é impagável, e as orelhas do mais velho também.

Este filme, para além de um elenco fantástico e de um argumento que nos faz revisitar o crescimento recente e vertiginoso das economias asiáticas emergentes, em particular da cidade de Bonbain/Mumbai capital económica da Índia recentemente palco de sangrentos atentados, tem também de interessante a confirmação de que este país e a sua cultura estão definitivamente na moda. Em Portugal, já vamos na segunda telenovela que nos leva até à Índia, a primeira nacional da TVI e agora a Brasileira da SIC “Caminho das Índias” o que confirma que o fenómeno não é apenas local nem se deve a motivos saudosistas. Também o Equador, começa nessas paragens, e se isto é assim na produção nacional, quem é que já se esqueceu de “A jóia da coroa” com a qualidade das series britânicas? Pena não chegar até nós o que se faz por lá. Da vasta produção de Bollywood certamente haveria muita coisa interessante que poderia ser vista nas nossas salas de cinema e na nossa televisão.

A moda ainda não chaga a tanto mas, enquanto esperamos, podemos ir deliciando os outros sentidos. O paladar, já tão familiar a muitos, e a audição, também já apreciada por tantos. Sim, porque esta moda inclui, cada vez com mais intensidade, entre outras coisas, a música que já ouço há algum tempo e que aprecio, muito para além do seu folclore. Fui uma aluna minha, que trabalhava numa loja indiana, que me iniciou, e depois veio o interesse pelo tema, pelos intérpretes e as pesquisas no youtube onde existe um manancial inesgotável sobre música Indiana. E o gosto tem se vindo a contagiar por muitos dos que estão ao meu redor, em particular pelas alunas, mas é interessante verificar que é um fenómeno generalizado e que a reacção é sempre muito semelhante – primeiro estranha-se e depois entranha-se - e acabo invariavelmente a passar-lhes as músicas para os seus MP3. Há uma aluna que, ficou de tal modo fascinada que, até já ensaia as coreografias.

Foi através do youtube que pude descobrira a materialização da música indiana nas imagens dos maravilhosos vídeos clips de produção bollyoodesca que nos deixam pregados à cadeira tal como acontece no final do filme, em que quem já estava de pé se voltou a sentar para assistir aquela coreografia hilariante, embora num cenário muito mais modesto que o dos vídeos que acompanham as versões oficiais das músicas. É um desses vídeos que quero aqui divulgar, com a esperança de que através deles, um dia, possamos ter cinema Indiano de boa qualidade ao nosso alcance. Até lá, recomendo a todos este filme, mesmo aqueles que não querem ser bilionário que, apesar de ser uma produção ocidental, serve muito bem para ir abrindo o apetite.
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Óscares para Quem quer ser bilionário:
- Melhor Argumento Adaptado
- Melhor Fotografia
- Melhor Som
- Melhor Montagem
- Melhor Direcção
- Melhor Realização
- Melhor
e… … … … … …
- Melhor Filme
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Bueno: E quanto às vacas sagradas, já me esqueci o que queria dizer. Só me vem à cabeça uma que, de sagrada não tem nada.
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9 comentários:

antonio ganhão disse...

Por momentos pensei que estavas a confundir este filme com o cinema Indiano... quanto às modas, formatam-se sempre pelo gosto mediano e raramento promovem o acesso à qualidade. Esperemos para ver se os teus desejos se realizam.

Anónimo disse...

"Quem quer ser bilionário?" Mas, não está mais do que comprovado que dinheiro e mulheres são as únicas razões pelas quais mais erros se cometem na vida? Até mesmo aquelas mulheres indianas que usam Kurta, que já foi lavada pelo menos uma vez, se incluem na dúvida anteriormente expressa. Apesar de tudo, o filme abre algumas possibilidades de construção de sentido. A resposta certa sobre como encontrar um amor perdido é a D: o Destino. Nem o deus Rama protegeu a procura de Latika por parte de Jamal Malik. No entanto, é interessante ver como um "rafeiro" do bairro da lata, preparador de chá, passa da miséria a rajá, e até ganha 20 milhões de rupias, durante essa busca do amor perdido. Nem uma "Cottage Orné" tem tanto valor como este género de amor. Mas, essa vontade que não morre, do Jamal, para quem se questiona sobre os mistérios da vontade e da sua força, é uma raridade. O homem tem uma débil vontade e é por isso que não se rende nem aos anjos nem à morte. Entre os homens e os cães tenho as minhas indecisões. Como diria Edgar Allan Poe, na história extraordinária "O Gato Preto": "[...]Aqueles que já cultivaram o afecto e a fidelidade de um cão inteligente não precisam que tenha o trabalho de lhes descrever a natureza ou a intensidade do prazer que isso traz. Há algo no amor altruísta e na abnegação de um animal que fala directamente ao coração daquele que tenha tido de experimentar frequentemente a fraca amizade e a ténue fidelidade de um simples Homem."

(Por vezes, a auscultar a ressonância dicotómica, entre as deusas sagradas e as vacas profanas...)

Anónimo disse...

Ao contemplar a pintura "Narciso" de Caravaggio resolvi o dilema, o problema da indecisão entre os homens e os cães. Converti-me ao narcisismo. Para esta decisão interior também contribuiu o visionamento de muitas fotos de um príncipe lindíssimo. Descobri nisso um bom narcótico, nas fotos e na conversão. Narciso e narcótico têm uma raíz comum, do grego "narke", entorpecido. Narciso simbolizava a vaidade e a insensibilidade visto que era emocionalmente entorpecido. Nesta ordem de ideias, lembrei-me deste belo excerto de François Jacob, in "A Estátua Interior": "(...) Trago assim em mim, esculpida, desde a infância, uma espécie de estátua interior que dá continuidade à minha vida e que é a parte mais íntima(...)do meu carácter. Essa estátua, toda a vida a modelei. Nunca parei de lhe dar retoques. Aperfeiçoei-a. Poli-a." Para concluir: agora, apaixonei-me por ela.

(pensamentos da minha Estátua Interior...)

Anónimo disse...

Narcisista!?

Bem, o Frederico recomendava que cada um se tornasse no que é.
Assim, isto não é mais do que processo dialectico entre o corpo e o espírito.

Como o espírito chegou a iluminação narcisista resta ao corto venerar o deus Onan...

Anónimo disse...

Quem nunca se tocou, que atire a primeira pedra! Na 1ª Carta de Paulo aos Corintios, Paulo diz: "Não sabeis vós que sois templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós é santo." O nosso corpo é o templo do Espírito Santo, de modo que tudo o que fazemos deve glorificar o Senhor. A história de Onan (Génesis 38:7-1) é com frequência citada como um exemplo de como Deus pune os masturbadores. Deus nos criou dando-nos a máxima perfeição que poderia dar: a liberdade. Tal como Kant tão bem a define ela é a propriedade da vontade de todos os seres racionais. Como tal podemos e devemos, por razões de saúde física e mental, escolher o melhor, fazer boas escolhas, dando-nos o direito ao prazer e à felicidade,isto é, à saúde e a poucos momentos mais prazerosos do que o do orgasmo. Por isso, In(consciência) agradece ao Senhor todos os dias o facto de teres sido criado dotado de um corpo capaz de te fornecer inesgotável prazer e de te proporcionar em todos os minutos da tua existência infindáveis e reiterados orgasmos.

Anónimo disse...

Fui ontem ver o "Quem quer ser bilionário" e fiquei deprimida. Muito deprimida. Achei o filme horrível! Não tive o cuidado de ver o argumento antes e, pelo teu artigo, pensei que era um musical ou coisa no género. Um love story à indiana. Levei um murro no estômago e quando de lá saí, apeteceu - me gritar na rua. Gritar muito e vomitar. Andei, andei até espairecer um pouco. Mas não consegui tirar o filme da cabeça. Hoje já estou um pouco melhor, mas não o queria tornar a ver. O filme é muito pesado. Bah! De uma violência enorme. Esmagador. Não pelo argumento, esse é banal: a criança pobre que se torna no homem rico e a menina com quem brincou é a sua amada. Mas as imagens de pobreza, para além do que a Europa imagina, raiam o insuportável.
Revivi a minha viagem de quase um mês na Índia, há dez anos atrás, de mochila às costas, naqueles comboios, dormindo e convivendo com os indianos. Ajudavam-me a encontrar a carruagem certa, indicavam -me o restaurante do guia.Eram muito gentis. Vi coisas inauditas para um ocidental, mesmo pobre. Vi-os morrer nas ruas, sentados sem protestar, até que passava a carreta dos mortos e os levava... Saltei por cima de centenas de pessoas que dormiam durante a noite na estação de Deli para apanhar o comboio e senti - me tão mal que me apetecia chorar. Quando cheguei a Hongkong, pensei que tinha voltado do passado, da Idade Média,e eu que não sou religiosa, agradeci a qualquer deus o ter-me feito nascer no Ocidente, na Europa, mesmo nesta país pobre que é Portugal.
Foi novamente o que senti ontem e agradeci: Obrigada Destino por me teres feito nascer na Europa!
Recomendo: Quem quer ser bilionário - a não ver.

Anónimo disse...

Oi Jão
Como vai?
Quando li seu texto sobre o filme me lembrei deste e-mail.
Cuidado quando vir ele…

A TV Globo, certamente não vai mostrar... na nova novela!
MAS É UMA NOVELA... O que se pode esperar?

HÁ MUITOS QUE EXCLUEM A INDIA DOS SEUS PROJECTOS DE VIAGENS;
A RAZÃO? - É ESTA;

O Caminho das Índias passa por aqui também...

Prestem bem atenção: não há sequer uma pessoa com aparência saudável, de gente que come RAZOAVELMENTE BEM, são moradores da miséria, ainda descendentes da exploração britânica.
A Índia só tem disso! É um país podre, os lugares visitados por turistas são proibidos para a maior parte da população, existem vaporizadores para perfumar o ambiente.
Não se iluda com as belezas apresentadas na novela. A realidade é outra.
Acredite se puder!
ADVERTÊNCIA: Contém fotos com conteúdo que pode chocar, mas é a realidade.
A Globo, certamente, não mostrará este tipo de imagens. Mas são reais!
Existem 20 mil multimilionários, 200 mil milionários e mais de um milhão abaixo da limiar da miséria.

Anónimo disse...

Acabei de ler o seu comentário Alberto. Obrigada. Haja alguém que me compreenda. Engraçado, estamos muitas vezes de acordo, já percebi.
Queria também aqui falar da novela da Globo que passa presentementa na Sic. Tudo falso como vocè diz.Fancaria. Tenho visto alguns episódios e entedia-me. Enerva-me. Tudo falso. Boliodesco. Nem os pobres são assim tão bonitos nem os ricos são assim tão indianos. Pelo que percebi e estive alguns dias a viver numa casa de uma família indiana instruída, classe média baixa, os indianos com dinheiro e instrução falam fluentemente inglês e estão muito ocidentalizados e muito próximos de nós. Viajam entre Londres e a Iíndia como nós vamos ao Algarve. Mais. Dados os negócios. Como grande parte dos orientais instruídos, de resto.
A novela da Globo não tem qualidade nenhuma. É puro folclore barato. Muito longe da verdadeira cultura indiana.É mesmo um atentado a esta.

Anónimo disse...

OBSCENIDADES, estas sim, e não os quadros de Courbet!

Voltando ainda ao filme que me incomodou deveras porque acordei demónios que julgava adormecidos. Dormi tão mal esta noite. Queria dizer que AMALDIÇOO mil vezes os governantes indianos que se mantêm no poder eternamente, através das dinastias famíliares,e que alimentam um perverso sistema social de castas que perpetua a discriminação. PARA UM OCIDENTAL DEMOCRATA É OBSCENO QUE UMA CASTA PRIVILEGIADA viva em condomínios fechados, no meio do maior luxo - luxos que não sonhamos sequer - e milhões de pessoas morram sem nada ter para se alimentar. Não faz parte da nossa estrutura mental. Custa muito. Não há distribuição de riqueza. A família do puxador de requixó não come nesse dia, se ele não puxar os turistas à custa do seu corpo famélico.Eu não fui capaz. Parte a alma.
É claro que é difícil melhorar do pé para a mão a vida de milhões de pessoas que vivem abaixo do limiar da pobreza. É claro que até há poucas dezenas de anos viviam sob o sistema colonial inglês, mas um sistema que deixa a população morrer na rua de inanição e as suas crianças de lepra (Eu vi lepra nas crianças a quem dei bolachas) e faz 200 mil milionários não é um sistema político justo. E era preciso mudá-lo.