quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

ESTÁ BEM... FAÇAMOS DE CONTA Ou Mário Crespo no seu melhor

Ontem, deparei-me com este artigo de opinião espantoso, escrito pelo jornalista mais competente da actualidade, que para além desta qualidade, entre muitas outras, agora demonstrou também ser um homem de enorme coragem e uma isenção irrepreensível. Se tudo o que este artigo resume e relembra (às memórias mais selectivas), for obras de campanhas negras, então vamos ter que acreditar que existe muita gente que não faz outra coisa se não conspirar. Ou será obra de magia negra?, Olho gordo? (inveja), bruxaria ou feitiçaria?

Se estas suspeitas (suspeitas?) todas recaísse sobre mim, não pregaria o olho de noite mas, como recaem só sobre o primeiro-ministro do meu país, penso que todos os portugueses podem dormir descansados. Ele é um homem impoluto, devemos acreditar na sua honestidade política e honra pessoal, na sua, na dos seus ministros e amigos políticos e na de toda a sua família, até na do filho do meio-irmão da mãe, como se de um dogma se tratasse. Quem não acreditar será considerado traidor à pátria por Decreto-lei. É para isso que existem as maiorias, para aprovar leis e Zonas de Protecção Especiais, quer sejam más, quer sejam péssimas.

Então está bem, façamos como Mário Crespo!


ESTÁ BEM... FAÇAMOS DE CONTA

2009-02-09

Façamos de conta que nada aconteceu no Freeport. Que não houve invulgaridades no processo de licenciamento e que despachos ministeriais a três dias do fim de um governo são coisa normal. Que não houve tios e primos a falar para sobrinhas e sobrinhos e a referir montantes de milhões (contos, libras, euros?). Façamos de conta que a Universidade que licenciou José Sócrates não está fechada no meio de um caso de polícia com arguidos e tudo.

Façamos de conta que José Sócrates sabe mesmo falar Inglês. Façamos de conta que é de aceitar a tese do professor Freitas do Amaral de que, pelo que sabe, no Freeport está tudo bem e é em termos quid juris irrepreensível. Façamos de conta que aceitamos o mestrado em Gestão com que na mesma entrevista Freitas do Amaral distinguiu o primeiro-ministro e façamos de conta que não é absurdo colocá-lo numa das "melhores posições no Mundo" para enfrentar a crise devido aos prodígios académicos que Freitas do Amaral lhe reconheceu. Façamos de conta que, como o afirma o professor Correia de Campos, tudo isto não passa de uma invenção dos média. Façamos de conta que o "Magalhães" é a sério e que nunca houve alunos/figurantes contratados para encenar acções de propaganda do Governo sobre a educação. Façamos de conta que a OCDE se pronunciou sobre a educação em Portugal considerando-a do melhor que há no Mundo. Façamos de conta que Jorge Coelho nunca disse que "quem se mete com o PS leva". Façamos de conta que Augusto Santos Silva nunca disse que do que gostava mesmo era de "malhar na Direita" (acho que Klaus Barbie disse o mesmo da Esquerda).



Façamos de conta que o director do Sol não declarou que teve pressões e ameaças de represálias económicas se publicasse reportagens sobre o Freeport. Façamos de conta que o ministro da Presidência Pedro Silva Pereira não me telefonou a tentar saber por "onde é que eu ia começar" a entrevista que lhe fiz sobre o Freeport e não me voltou a telefonar pouco antes da entrevista a dizer que queria ser tratado por ministro e sem confianças de natureza pessoal.* Façamos de conta que Edmundo Pedro não está preocupado com a "falta de liberdade". E Manuel Alegre também. Façamos de conta que não é infinitamente ridículo e perverso comparar o Caso Freeport ao Caso Dreyfus. Façamos de conta que não aconteceu nada com o professor Charrua e que não houve indagações da Polícia antes de manifestações legais de professores. Façamos de conta que é normal a sequência de entrevistas do Ministério Público e são normais e de boa prática democrática as declarações do procurador-geral da República. Façamos de conta que não há SIS. Façamos de conta que o presidente da República não chamou o PGR sobre o Freeport e quando disse que isto era assunto de Estado não queria dizer nada disso. Façamos de conta que esta democracia está a funcionar e votemos. Votemos, já que temos a valsa começada, e o nada há-de acabar-se como todas as coisas. Votemos Chaves, Mugabe, Castro, Eduardo dos Santos, Kabila ou o que quer que seja. Votemos por unanimidade porque de facto não interessa. A continuar assim, é só a fazer de conta que votamos.
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Bueno: Eu não acredito, pêro que las ay, las ay!
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* Deve ter sido por isto que o Mário lhe soltou os cachorros em cima e lhe mordeu as canelas quando o avisou: “e o Senhor não brinque comigo com palavras”. Aquilo correu mal ao Pedrito!
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1 comentário:

Anónimo disse...

Como dissipar os miasmas e os puros delírios que pairam sobre a sociedade portuguesa? Os interesses políticos obedecem à lógica das economias de mercado (e vice-versa), reflectem o estado do mercado e a sua procura desenfreada de «imagens positivas». Andamos e estamos quase todos enredados nesta sociedade de mentiras e de falsificações, do faz de conta, para o encobrimento da verdade, bem como para reabilitarmos os criminosos e toda a sua teia de fabricantes de imagens. Que entidade divina, força mágica, ou teoria/máquina económica e política/educacional nos irá reabilitar?, a nós todos? Começamos a desenvolver uma prolongada habituação cultural a falsas imagens que não produzem um efeito de dependência menos severo do que o das drogas. A crise em que nos encontramos submersos/ imersos convida/obriga a uma reformulação das mentalidades, à denúncia da fraqueza de carácter dos criminosos. Estes têm todos em comum a convicção da impunidade e a ingenuidade da crença de que os seus vícios fazem parte da condição humana, quando considerada sem hipocrisia.

Estátua com Ética ( e com Consciência Política/Educacional)