sábado, 21 de fevereiro de 2009

Não é com moscas (mortas) que se apanha Vinagre

Não foi só por falta de tempo que fiquei mais de uma semana sem postar nada aqui. Também foi mas, mesmo que não tivesse tido uma semana alucinante de trabalho escolar e reuniões que me rebentaram com a cabeça (com actas à mistura, montagem de exposições e discussão de Objectivos Individuais), acho que não teria escrito nada na mesma. Já tinha decidido que não iria escrever nada durante algum tempo, para não retirar peso e importância ao último post, que passaria a descer na página e perder protagonismo. Achei que necessitava de ficar a marinar uns dias no topo do caldeirão para que os comentários pudessem ir sendo cozinhados em lume brando para alimentar todos aqueles que estivessem com apetite.

Toda a gente tem alguma coisa a dizer sobre a injustiça que acontece neste mundo, em particular por aquela que atinge os que nos estão mais próximos, aqueles que estão no lugar em que um dia poderemos estar nós. Não só as pessoas com responsabilidade mas, também todos os indivíduos, os simples cidadãos, de dentro e fora dos sistemas, têm alguma coisa a dizer sobre este assunto. Numa carta escrita, desde a cadeia de Birminghan, Martin Luther King disse: “A injustiça particular é uma ameaça à justiça universal. Estamos encurralados numa rede iniludível de reciprocidade, unidos num único destino. O que afecta a uma pessoa directamente, afecta a todas indirectamente”.

Isto acontece em relação ao que se passa no nosso planeta, que cada vez é mais global – guerras, poluição, destruição de recursos, opressão e perseguição de populações pela sua raça, credo ou (in)cultura… mas, também a um nível mais doméstico – Casa, Família, Trabalho, Bairro, Cidade e País. Por isso, temos que ter o enorme valor de reconhecer que, também nestes casos, que nos são mais próximos, existem práticas constantes e não justificadas de violação dos direitos que nos são devidos pela nossa constituição, pretensamente democrática.



Esta violação, expressa-se nos medos, e cada vez são mais notórias e nas mais diversas situações: Expressão, Informação, Pensar e Opinar, que se traduzem em limitações aos mais diversos níveis, para não falar em questões mais pessoais ou intimas como a liberdade politica, religiosa e de orientação sexual, também elas garantidas por lei. Não reconhecer esta realidade, em nada favorece a nossa vida em sociedade e faz-nos perder o respeito por nós mesmos, aos nossos olhos e aos olhos dos outros, amigos e inimigos. Calar e consentir é meio caminho para a destruição do nosso semelhante e, por arrastamento, de nós próprios - mais cedo ou mais tarde.

Por isto tudo, quero deixar aqui o meu reconhecimento a todos os inconformados com as injustiças que se manifestaram solidários com o colega José Vinagre. Nunca pensei que fossem tantos e que o meu Blog, nos comentários de alguns Posts, se transforma-se no Fórum da ASED. Mesmo aos que o fizeram sob pseudónimo. Admiro-vos a todos, e em particular aos que elevaram a discussão a um altíssimo nível intelectual, que até consigo entender o alcance dessa estratégia dialéctica, pena que ela não seja acessível a todos os seus destinatários. Tendes que ser menos imodestos para fazer passar as vossas mensagens; Diria mesmo, mais curtos e grosso: que isto “para quem é – bacalhau basta!”

Mas, houve muitos mais que tentaram, que não ficaram indiferentes, que quiseram mostrar a sua solidariedade, e por falta de domínio das TIC’s e outras dificuldades nestes circuitos, não conseguiram enviar os seus comentários. Para estes também um grande obrigado, em meu nome e do colega Vinagre. Para todos os outros que por MEDOS se mantiveram nas sombras e de boca fechadinha os meus sentidos pêsames. Temos pena mas, dos fracos não reza a história. Se chegámos onde chegámos, foi porque os mais fortes venceram e os mais fracos ficaram pelo caminho, é a lei da natureza: elementar meu caro Darwin. Há ainda os que ainda não tiveram tempo, os que para quem este assunto não é prioritário, pode esperar, e quanto mais tarde melhor, até puder cair em esquecimento e dormir de noite na mesma. Não sei se não se acabarão por diluir nos anteriores mas, com uma vantagem: sem consciência disso! Achando-se diferentes e melhores; Será que não são moscas ainda piores a esvoaçar o mesmo fedor?


Bueno: Como diz o meu amigo Alberto Vaz (comentador brazuca de serviço):

Sabedoria não ocupa lugar mas burrice é muito espaçosa.

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4 comentários:

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
antonio ganhão disse...

A vida é demasiado curta e o que é preciso é saber viver!

Eis uma convenção, que de tão óbvia, é assimilada pela maioria dos portugueses. As gritantes desigualdades e as oportunidades face à lei, levam-nos facilmente a abarçar este ideal.

Somos orfãos de boas referências (e mais ainda das boas práticas) e para que preciso eu de um sistema de ensino quando o Armando Vara atinge o céu (e ainda cá na terra)?

Anónimo disse...

Mea culpa ou segundo a Religião Católica " Acto de Contrição";

Continuando na esteira das máximas do seu ilustre amigo Alberto Vaz, o Brasuca, surge-me o "Pensa globalmente e age localmente". Mas alto! Aí é que o rinoceronte torce o rabo! Ai as nossas vidinhas e as nossas tamanquinhas! Rebéubéu pardais ao ninho and so on so on...
Vai tu, que eu agora não tenho tempo. Eu assino depois.Eu critico depois. Eu denuncio depois.
E não agimos no nosso de local de trabalho, na nossa rua, no nosso bairro, no nosso país, como tão bem diz, no seu texto, Sr. Paio.
Somos medricas. Somos cobardes. Vivemos interiormente atemorizados.Cultivamos medos ancestrais.
Procuramos causas longe da nossa porta. Mobilizamo-nos. Enviamos roupas e livros para Moçambique. Para o Zimbabué. Mas, o filho da nossa vizinha não tem livros nem roupa...
Escolhemos combater as injustiças, a fome em África ou a exploração da mão de obra infantil na Tailândia, com mails. Mandamos mails aos amigos, enquanto comemos bolachas ou, numa mais burguesa, enquanto beberricamos wiskies e vodka com laranja.
Todos temos belas teorias sobre o mundo: a pobreza; as crianças -Senhor, as crianças; o ambiente, a corrupção universal. Damos belas aulas sobre estes temas. Olhamo-nos embevecidos ao espelho. Que bela aula, eu dei hoje! Fazemos análises sociológicas. Desenvolvemos altos índices de moralidade. De humanidade. Mas deixamos os nossos alunos desmaiar de fome. E não nos indignamos. Não protestamos nos sítios certos. Não escrevemos à Tutela. Não fazemos um motim. Temos medo.
Escolhemos o mais fácil. O que não nos compromete. Pomos uma velinha na varanda por Timor; enrolamos um lencinho palestino ao pescoço, e dormimos de bem com a consciência. Vamos às manifs de profs ao sábado gritar "Abaixo a avaliação" e na segunda pela manhãzinha entregamos às escondidas os objectivozinhos. Temos medo. Muito medo.
Por alguma coisa o povo português manteve no poder, durante tantos anos, um ditador de merda como Salazar. Tinhamos medo. Continuamos a ter medo.

Anónimo disse...

O problema da injustiça sofrida na escola a que se reporta o seu texto não existiria se os membros dos Orgãos de Direcção distinguissem bem entre o que é da ordem da natureza e o que é da ordem da convenção. Segundo a ordem da natureza é preferível cometer a injustiça do que sofrê-la. Segundo a ordem da convenção é preferível sofrer a injustiça do que praticá-la. Os mais fracos sempre necessitaram de convenções para refrearem os ímpetos selvagens e desregrados dos mais fortes, aqueles que gostam de fazer uso de uma liberdade sem freio. Os mais fracos vão, entretanto, desenvolvendo o espírito de cordeiros e de escravos; vão adquirindo traumatismos, fobias, medos e receios nos mais variados graus e de diversificada ordem. Vão adoptando, como sendo normal para a vida, o critério do sofrimento e do castigo como medicina da alma. Infelizmente, estes são a maioria. Já Sócrates, na antiguidade greco-clássica, não o actual obviamente, se questionava sobre o que é a justiça segundo a Natureza. Não é da ordem da natureza que a maioria seja mais forte e poderosa do que o indivíduo devendo, por isso, ditar-lhe as leis. A maioria vai defendendo que é preferível sofrer do que cometer a injustiça. Quer segundo a ordem da natureza quer segundo a ordem da convenção deveria ser preferível sofrer a injustiça do que cometê-la. Mas, sabemos que não é assim. Nas sociedades capitalistas, a maioria só possui a força física e a força do trabalho como valor de troca. Os verdadeiros governantes, eleitos de entre a maioria, deveriam ser os melhores, seres éticos por excelência, modelos de virtude. Seriam verdadeiros políticos-educadores, especialistas não apenas na arte dos negócios públicos mas também na boa administração, escolar ou outras. O seu discurso e a sua acção seria, então, não utilitarista, demagógico e oportunista, expressão de uma moral da hipocrisia e da conveniência pessoal mas sim um discurso e uma acção voltados para a busca da sabedoria, do conhecimento da virtude para se ser virtuoso, isto é, Bom e Justo, em termos Universalmente Válidos. Sabemos que este discurso e esta acção não lhes convém, não serviria os interesses de quem não olha a meios para atingir fins, não serviria os interesses de quem só procura na vida apenas riqueza, glória, luxúria, sucesso imediato e prestígio, não revelando, por isso, a verdadeira fortaleza de(a) alma dos Homens virtuosos, Bons e Justos, aqueles que olham a meios para preservarem a sua integridade moral e, consequentemente, psicológica.